
Amanhã, 20/11 (dia da morte de Zumbi dos Palmares, há 313 anos), será comemorado o “Dia da Consciência Negra”, dia dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.
Por que estou citando isso? Tenho algo contra os negros?
Não. Absolutamente nada.
Tenho contra a incoerência que nos cerca a cerca de vários temas, e como essa semana o assunto é esse, então resolvi pensar um pouco sobre ele. Não sobre o “Dia da Consciência Negra”. Resolvi pensar sobre o “Dia da Inconsciência Humana” aproveitando a comemoração da vez.
Há alguns dias o complexo sistema eleitoral americano elegeu o 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Um susto para alguns, a trajetória natural para outros. Independente disso (eu particularmente torci para que ele fosse eleito), por que a celeuma durante a campanha? Porque ele é negro. Tudo normal se fosse uma eleição africana, onde a população negra é estatísticamente maior. Mas nos E.U.A. isso seria impensável até semanas ou meses atrás. Apesar de se auto promover como país da liberdade, muitos são os obstáculos para várias “minorias” por lá (como em todo lugar), e algumas maiorias são ainda mais estranhas do que as minorias. O diretor nacional da Ku Klux Klan (KKK - aquele bando de malucos vestidos com lençol e chapéu cônico que defende a supremacia branca, uma minoria que representa uma parte da maioria), Thomas Robb, falou que Obama é “metade negro”. Nas palavras dele (Thomas) “Obama se tornou o primeiro presidente mulato dos Estados Unidos. Eu sei que vocês estão ouvindo que ele é o primeiro presidente negro, mas isso não é verdade. Ele não cresceu num ambiente negro, ele cresceu com sua mãe americana branca, porque seu pai queniano negro fez o que é muito comum entre os homens negros: os abandonou”. Estranho isso, não?
Voltando: “Dia da Insconsciência Humana”. Será que realmente somos tolerantes? Ou a favor disso ou daquilo? Será que estamos no caminho certo das coisas? Será que nosso comportamento é lógico?
No Google se você digitar, sem aspas, os termos “orgulho negro” e “orgulho branco”, terá (hoje) como resultado o seguinte:
aproximadamente 2.280.000 para orgulho negro
aproximadamente 1.670.000 para orgulho branco
Por que o orgulho negro é quase a metade a mais disponível do que o orgulho branco? Minha opinião: preconceito. Preconceito em relação ao “politicamente correto”. Em relação à “minoria”. Preconceito contra si mesmo. E daí para fora! Vestir uma camiseta como a mostrada no início do texto é “legal”, “cool”, “in” e todas as demais palavras de cunho positivo que você conseguir relacionar. É vestida não só por negros, mas por brancos, amarelos, vermelhos, até mesmo os coloridos. Mas tente sair às ruas com uma camiseta com a estampa “100% BRANCO” e depois me conte.
É disso que estou falando. Escrevendo, desculpe.
Procure um portal lícito sobre a “raça” branca na internet. Não há. Procure uma revista sobre a “raça” branca nas bancas: não há. Mas sobre a “raça” negra há. Abaixo, dois exemplos:
http://www.mundonegro.com.brhttp://racabrasil.uol.com.br“Ah! Então você está propondo a intolerância em relação aos negros?”
Pensamento estúpido esse. O que proponho é pensar sobre nossa incoerência de conceitos e pre(-)conceitos. Por que uns podem e outros não? Não somos uma sociedade igualitária? Democrática?
Che Guevara é considerado um herói para várias pessoas (um dia falaremos sobre isso por aqui). Sabe-se hoje que era apenas um terrorista medíocre. E era “branco”.
Zumbi dos Palmares é considerado um herói para várias pessoas. Sabe-se hoje que era apenas um déspota e que mantinha escravos para si próprio dentro do quilombo. E era “negro”.
Dois “heróis” farinha do mesmo saco. Duas lendas intocáveis... uma pena. Esconde-se a História por conta das minorias ou de “raças”.
O próprio conceito de “raça humana” não existe, cientificamente falando (escrevendo...). Raça é sinônimo de subespécies - caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies. Para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial. Na espécie humana a variabilidade genética representa 3 a 5% da variabilidade total, ou seja, quase uma total ausência de diferenciação genética. A partir desse referencial teórico, inexistem raças humanas. No “Código Internacional de Nomenclatura Zoológica” (4ª edição, 2000) não existe nenhuma norma para considerar categorias sistemáticas abaixo da subespécie. Resumindo: não há uma raça humana ou tipos de raça humana. Algo além disso é burrice, estupidez ou qualquer outro termo pejorativo que você puder encontrar ou criar. (Para uma leitura inicial, sugiro o bom artigo da Wikipédia: Raça Humana -
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%A7as_humanas)
A partir do conceito burro de raças todo o restante me parece tão burro quanto. E pior, tendencioso.
Se você pensa que esse blogueiro é racista, saiba que o mesmo raciocínio se aplica ao nazismo: ideologia sobre a superioridade ariana (brancos) tão burra quanto a idéia vigente sobre o racismo para com os negros. Por que? Porque está baseada no mesmo princípio burro de que há raças diferentes de homens - racismo.
Retirado de um desses sites de conceitos, o racismo é “a tendência do pensamento, ou do modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras”. “Onde existe a convicção de que alguns indivíduos e sua relação entre características físicas hereditárias, e determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais, são superiores a outros.” A crença da existência de raças superiores e inferiores foi utilizada muitas vezes para justificar a escravidão, o domínio de determinados povos por outros, e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade, desde os egípcios dos tempos faraônicos.
Daí caimos nas cotas. As tão comentadas e estudadas cotas no Brasil. Cotas para quase tudo (agora estão querendo criar cotas para meia-entrada para os cinemas...). Para Yvonne Maggie (antropóloga da UFRJ), a reserva de vagas para negros nas universidades ou em qualquer outra instituição é uma “medida errônea e perigosa porque parte do princípio da crença em raças”, coisa que, como lemos acima, não existe.
Ela analisa mais: “As cotas para negros carregam em si o veneno em lugar de solução porque para diminuir o racismo, elas constituem, fundam, a idéia de raça, dividindo os estudantes por força de lei em negros e brancos para assegurar direitos”.
Ela comenta que a divisão por cotas contribui para a segregação, pois legalmente a sociedade brasileira passa a ser dividida em negros e brancos. Mas a Constituição Federal determina que todos são iguais perante a lei. E agora, José?
Sempre que um governo se meteu a definir uma raça ou categorizar em raças a população, acabou a decisão acarretando só desgraças – vide a ideologia nazista e sua “pureza ariana”, ou o maluco governante iugoslavo que fez miséria em seu país.
Em outro lugar eu li que o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UNB, Nelson Inocêncio, acha que os movimentos e pessoas que são contrários à política de cotas estão alienados, pois é tendência geral e para o progresso da sociedade.
Bem, eu particularmente nunca vi progresso na segregação, que é o que o sistema de cotas faz. Inocente Inocêncio...
Pense nisso.